27 de março de 2016

História da gravidade n.1



o joelho esfolado sob a água corrente fazia tudo em volta arder como brasa, sem ponto de partida ou fronteira última, irradiando a fatalidade de maneira que nada mais havia além da cena duplicada no espelho, o terror e sua miragem, o círculo atravessando sólidos, forçando caminho, corroendo o centro dos móveis e dos tecidos que revestiam os móveis como se o ar tivesse de repente se tornado ácido, faca, bala. nos buracos surgia o alívio da penitência, o estranho contorno que sobrevém à dor autoinfligida, o sangue lavado ressurgindo a todo instante nos poros abertos como um ralo que transborda. formava ali o registro, a naturalidade caótica do que ameaça a consistência do corpo, aquilo que aniquila o prumo imaginário para o qual desejamos voltar instantaneamente num gesto que se assemelha à inércia de uma placa, de uma porta. gritava sem articular palavra, sem oferecer ao universo um esboço de sentido, acreditando portanto em adivinhações, a ferida e seu suporte evaporando ante o fervor da fé transformadora. gritava de dor e alguém gritava dentro da imagem do espelho, me forçando a ouvir tudo com mais clareza, em dobro, em um modo de sobrevivência que dependia da ameaça para funcionar. cada pedaço do papel de parede se descolando, cada mancha no carpete, cada foco de ferrugem, tudo reverberava na pele do joelho e na imagem multiplicada que só eu ainda via. indo e vindo sem lógica ou previsão matemática, desprovido de qualquer anúncio, orbitava entre nós o pêndulo desgovernado que a cada movimento para longe arrastava consigo a promessa da tranquilidade. o joelho ardia, a água arrastava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário