5 de fevereiro de 2017

história da gravidade n.6



a dor, assim como o sono, vem em ondas. a primeira crise aguda não desemboca em terra arrasada. sucedem-se outras, e entre elas breves intervalos de calmaria, mas o alívio é apenas pretexto. novo golpe. um pouco de sossego. cada pico mais alto que o anterior. agora só se pode sucumbir. é verdade que sempre pairou sobre nós o ar espesso da fatalidade, a densa poeira que anuncia e recobre as grandes tragédias. era particularmente mais fácil viver nesta medida, contemplando qualquer paisagem como a geografia de um desastre incompleto. estávamos lá quando o tempo virou e o céu se encheu de pedras. pagamos pra ver.

então perder é isso. um talho virulento feito à faca, da cabeça aos pés, do tipo que não se pode suturar. o peso sobre as costas aderindo de vez ao corpo, sacrificando ossos e articulações. a vontade de acordar. e nunca mais o conforto ordinário das horas passadas em branco, sem nenhum assombro a não ser a vaga ideia de que amar é também consentir com a morte. agora só posso estar nesta sala, desta maneira, sentada de frente para a janela da qual tantas vezes observamos a rua lá embaixo, durante horas a fio. era difícil seguir sabendo que, cedo ou tarde, o encontro se provaria em sua faceta mais dura: estar e não estar ao mesmo tempo. criamos alguns jogos, distrações. sem deixar de temer, acreditei na chance que os números nos davam, projetando este real para um futuro tão distante que eu mesma não conseguia divisar, a não ser como espectro de uma crença. deixamos tudo pra depois.