3 de novembro de 2015

Novos e abatidos



Depois havia a caça. A perseguição desleal e perturbadora que nos haviam ensinado a cultuar como sinal de nobreza e distinção. Caçávamos nossas feições desajustadas, nossos desvarios burgueses, nossas altercações comezinhas por um punhado de moedas se tanto. A caça era o modo pelo qual sempre retomávamos a convivência pacífica, de outra maneira açoitando a carne alheia, como uma dança em que o único objetivo é chegar ileso à música seguinte. Os mais velhos davam palpites desencontrados, apontando a esmo para lugares onde nada se via além da paisagem inerte. Os traços mais reluzentes eram associados a certa criatura exótica, ligeira e algo mística cuja aparição fugaz era celebrada com euforia na retaguarda do grupo, aonde as informações chegavam deturpadas pela distância. Assim era que todas as noites, com muita paciência e até certa lentidão, como se o menor movimento brusco pudesse desencadear toda sorte de maldições, assim era que tomávamos nossos lugares à mesa, ciosos de nossa estirpe de caçadores, sem outra causa para interpor aos pratos e talheres que não esses jogos de esconder, barganhando pequenas vantagens entre uma garfada e outra daquilo que matamos.